sábado, 23 de outubro de 2010

nesse exato momento eu apenas desejo gritar palavras certeiras,
mas não sei transformar esse meu grito em frase.
deixo aqui transcrita minha incapacidade,
minha falta de talento,
minha falta de autocontrole.
transcrevo minha baixeza,
transcrevo meus medos,
transcrevo minha loucura sem cura.
transcrevo que embora sorridente a minha alma sempre dói.
transcrevo que tenho maus desejos,
que muito pouco sei do amor
e que não tenho as emoções em ordem.
transcrevo que quero muito dinheiro;
que quero filhos e casamento,
ou casamentos e filho;
o que eu desejo é uma casa gigante em Ipanema
com terraço e vista pro mar
só pra fazer orgia todas as noites,
pra alimentar meus vícios, minhas compulsões nervosas,
pra fumar cinco cigarros de uma vez,
pra usar todas as drogas existentes olhando pro cristo de braços abertos
em represália ao caos da cidade -
quero ser o rebelde de um filme rodado nos anos oitenta;
eu transcrevo que quero férias e quero viajar pra Europa.
e eu posso te garantir
que querer apenas o mesmo que qualquer burguês filho da puta
faz um homem sangrar.
transcrevo que a minha alma é suja e meu moral é torto.
transcrevo que mato meu sonhos diariamente
porque eu não acredito neles,
mas deixo renascerem no dia seguinte.
sou extremamente fraco!
transcrevo que me olho muito no espelho
e não me acho bonito como eu quero me achar,
mas me atraio por mim.
me atraio e me traio, sempre, todos os dias.
porque eu sou mesmo um filho da puta, um canalha, um sujo,
sou só um imundo perdido numa noite escura e barulhenta,
procurando uma casa de samba que não me cobre a entrada.
transcrevo que tenho todos os defeitos,
que tenho pânico do mundo,
e que sou muitíssimo dissimulado.
ah, eu transcrevo que sinto coisas horríveis
e que eu me controlo o tempo todo
só pra não dizer as frases que não podem ser ditas,
embora torcendo pra falhar e dizer.
eu confesso, sem nenhum pudor,
que quando não encontro um lugar bacana pra eu ir,
quando não tenho ninguém pra visitar e amar,
eu torço pra que chova muito,
só pra ninguém sair de casa.
e eu transcrevo tudo isso e te peço:
por favor conte pra todos!
sim, publica na tua coluna no jornal,
escreve no mural do teu facebook,
me ponha no teu próximo curta metragem, porra.
sim, eu te imploro,
faz um filme fodido sem verba,
sem patrocínio,
sem apoio nenhum.
um filme que seja muito tosco,
mas que saiba ser foda.
com música forte e luz bacana num clima noir.
conta pra todo mundo que eu não presto,
que eu não tenho escrúpulos,
que eu venderia meu corpo e minha alma por muito dinheiro.
e talvez até por bem pouco,
por um copo de cerveja num dia quente
ou por uma xícara de café forte e doce num dia muito frio.
conta nesse teu filme tudo isso sobre a minha escrota pessoa.
também transcrevo isso pra que você musique como meu tema.
uma música que não vire hit,
que não toque em nenhuma balada,
uma música que os críticos chamem de arte.
música pra gente rica ouvir bebendo vinho,
comendo foie gras com amora
e trepando loucamente.
e eu só te peço mais uma coisa:
faz parecer que eu sou único.
não fode a porra do filme,
não mostra que sujeira e podridão são requisitos pra sobreviência
num mundo perdido sem dó e sem deus.
assino contrato e dou entrevista e fico muito famoso,
mas só se for como eu quero.
sou o único sujo.
a única alma podre do planeta.
o único ser humano que não é humano porque o seu espírito é de porco.
no fim do teu filme,
põe meu nome maior que o de todos.
coloca uma cor em destaque no meu nome artístico,
esse que eu uso como roteirista
e também como ator e poeta.
mas, por favor,
não esquece de me ajudar a confirmar,
de dizer por aí que o meu roteiro não tem nada de autobiográfico.
de dizer que só uso a primeira pessoa nos meus versos
porque sou limitado,
um artista medíocre,
que só assim eu aprendi fazer.
não esquece nunca de dizer em todos os lugares
que eu tenho um coração limpo,
que eu tenho uma alma iluminada.

1 comentários:

  1. a falsidade da procura da autêncidade? sociedade do espetáculo? o real não existe!

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