Ofereceram-me brigadeiro morno e eu recusei. Mesmo no frio paulista de 8ºC prefiri comer o brigadeiro gelado a contentar-me com ele morno. Esperar não é o meu forte, mas prefiro isso a ter de qualquer jeito. Quando conto das minhas experiências, dos meus gostos, das minhas manias, ouço sempre eufemismos que no fundo me acusam de louco. Sei que não vivo realmente no mesmo tempo do mundo. Sou reflexivo, não sou tecnológico e nem gosto de muita informação. Na verdade não desgosto, mas não sou capaz de decifrá-las tão rápido. Não sei muitas línguas, não entendo de programas de computador e não sei cantar mais que cinco músicas de uma mesma banda (isso quando sei alguma inteira). Sou fragmentado e vejo o mundo dessa forma. Dói-me um pouco essas diferenças, confesso. É que no fundo me sinto tão eu, que não encontro quem realmente se pareça comigo, nem eu mesmo. O que me tira desse estado e me lança a um estágio de salvação é o meu gosto pela pluralidade. No boteco da esquina eu sou o mais malandro. Na sofisticada festa do Sr. Arnaldo capricho no meu black-tie. Não, eu não finjo. Por que as pessoas não entendem que ser mutável não é padecer de falta de personalidade? Eu não quero ser sempre o mesmo. E o mais difícil é que as pessoas sempre querem o mesmo. O ser humano ama Newton só porque ele descobriu a odiosa inércia. Não, eu não quero comer de novo no mesmo restaurante. Sim, a comida é boa, mas eu quero novidade. Oi, prazer, meu nome é Léo (tá, Leonardo), tenho 19 (ainda não me acostumei a dizer que tenho 20) e não gosto de rotina. Tenho medo de me expôr publicamente e mesmo assim escrevo em primeira pessoa, quando na verdade eu gostaria de escrever em terceira. E estou tentando entender esse turbilhão de coisas que passa pelas minhas veias e ontem descobri num filme que pode ser arte. Hoje ouvi numa entrevista que todo artista tem um pouco de loucura e acho que estou no caminho certo-ou-errado, mas estou no caminho. Agora estou batalhando pra ir lá pra bem longe e pensar-ou-não nisso tudo. É, eu acho mesmo que estou fugindo da realidade, mas nem por isso me sinto covarde. Sou um aventureiro e não vejo mal nenhum nisso. Aliás, eu acho que ser qualquer coisa já é tão cansativo que se ainda quisesse ver mal no que sou não suportaria os fardos. Mas eu ainda paro para pensar nisso de ser, porque daqui a pouco eu já sou outro que acha importante pensar sobre o dia na hora de dormir e rever os erros e festejar os acertos. É... Eu mudo um pouco às vezes. E eu brinco de ser porque levar isso a sério deve doer... E talvez eu não seja assim tão diferente. Talvez eu seja mesmo só mais alguém crescendo e conhecendo esse mundão de Deus. Talvez, talves, tauves.
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